Desculpe-me amor, mas hoje vai ter que ser assim. Desculpe-me amor, mas hoje eu preciso falar de mim. Preciso te dizer o que se passa aqui dentro, mas como? Eu sei… Você já percebeu que as coisas mudaram e que, infelizmente, eu não mudei. Continuo sendo essa menina inconstante, incoerente, indecisa e tudo mais de in que você puder colocar atrás de uma qualidade de gente bem sucedida na vida. Desculpe-me, mas não dá pra evitar. Eu não sei explicar. Nunca soube. Pra ninguém. Não é a primeira vez que isso acontece.
Sabe aquela história que quando as proteínas perdem sua forma, elas acabam perdendo também sua função? Comigo é mais sou menos assim. Eu sou, digamos, deformada. Calma, deixa-me te explicar. A vida vai levando a gente assim, aos trancos e barrancos, te empurrando de um lado, pressionando do outro, cutucando lá no canto e você acaba tomando uma forma que nem sempre é do jeito que você queria. Então, a nossa luta diária é pra tentar percorrer as estradas sem esbarrar muito nas coisas e nos outros viajantes; tentar lutar contra as deformações indesejadas que nos foram causadas e que nos atrapalham a ser aquela esfera perfeitinha que todos naturalmente almejam ser. Tentar moldar-se se ao melhor que poderíamos ser.
O problema comigo é que em algum momento da minha caminhada, antes de te encontrar, me deformaram naquela parte do corpo em que a gente se encaixa em outro pra poder caminhar a estrada mais estavelmente, afinal, duas quase-esferas encaixadinhas têm mais estabilidade do que uma só, solta. Eu sei que não posso te obrigar a ficar aqui, com só parte de si mais ou menos encaixada em mim desse jeito meio torto e meio contra a gravidade, mas é o máximo que eu posso te oferecer. Desculpe-me amor, mas não sei se tem conserto pra mim. E, desculpe-me amor, eu não sei se quero procurar por ele agora. Então, eu te falo de uma vez por todas e sem maiores devaneios: se quiser, tente vir comigo assim, frouxo e desconfortável; se não quiser, continuarei minha caminhada torta, tentando reformar outras partes de mim mais simples de se reparar. É triste, eu sei. Mas tem de ser assim. Porque se não for estranho, triste e incomum, não estamos falando mais de mim. 
Bia Valle

Desculpe-me amor, mas hoje vai ter que ser assim. Desculpe-me amor, mas hoje eu preciso falar de mim. Preciso te dizer o que se passa aqui dentro, mas como? Eu sei… Você já percebeu que as coisas mudaram e que, infelizmente, eu não mudei. Continuo sendo essa menina inconstante, incoerente, indecisa e tudo mais de in que você puder colocar atrás de uma qualidade de gente bem sucedida na vida. Desculpe-me, mas não dá pra evitar. Eu não sei explicar. Nunca soube. Pra ninguém. Não é a primeira vez que isso acontece.

Sabe aquela história que quando as proteínas perdem sua forma, elas acabam perdendo também sua função? Comigo é mais sou menos assim. Eu sou, digamos, deformada. Calma, deixa-me te explicar. A vida vai levando a gente assim, aos trancos e barrancos, te empurrando de um lado, pressionando do outro, cutucando lá no canto e você acaba tomando uma forma que nem sempre é do jeito que você queria. Então, a nossa luta diária é pra tentar percorrer as estradas sem esbarrar muito nas coisas e nos outros viajantes; tentar lutar contra as deformações indesejadas que nos foram causadas e que nos atrapalham a ser aquela esfera perfeitinha que todos naturalmente almejam ser. Tentar moldar-se se ao melhor que poderíamos ser.

O problema comigo é que em algum momento da minha caminhada, antes de te encontrar, me deformaram naquela parte do corpo em que a gente se encaixa em outro pra poder caminhar a estrada mais estavelmente, afinal, duas quase-esferas encaixadinhas têm mais estabilidade do que uma só, solta. Eu sei que não posso te obrigar a ficar aqui, com só parte de si mais ou menos encaixada em mim desse jeito meio torto e meio contra a gravidade, mas é o máximo que eu posso te oferecer. Desculpe-me amor, mas não sei se tem conserto pra mim. E, desculpe-me amor, eu não sei se quero procurar por ele agora. Então, eu te falo de uma vez por todas e sem maiores devaneios: se quiser, tente vir comigo assim, frouxo e desconfortável; se não quiser, continuarei minha caminhada torta, tentando reformar outras partes de mim mais simples de se reparar. É triste, eu sei. Mas tem de ser assim. Porque se não for estranho, triste e incomum, não estamos falando mais de mim. 

Bia Valle