A Gaiola Que Me Protege Me Sufoca

Bia Valle. Livros, antiguidades, miniaturas, dança, Jesus. Nem todos os quadros são auto-retratos.
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O café estava amargo assim como suas memórias. Estava cansada. Exausta como sempre. Da janela de seu quarto deitava seus olhos sobre a rua vazia. Já tardava a madrugada e ela era incapaz de descansar a mente sobre o travesseiro. Não suportava mais o barulho insistente do corvo:

- Desista! Desista! Desista!

O corvo, empoleirado na estante, a olhava com seus minúsculos olhos negros como piche e ria da sua tristeza. Inocente era ela de achar que suportaria aquele mundo. Ela sabia que não nascera pra usar máscaras. Por que é que insistia tanto naquela farsa? Num instante de súbita coragem ela respondeu ao pássaro:

- O que você quer? Que eu crie asas? Que eu assuma o manto negro? Impossível! Impossível!

Esmurrou três vezes a escrivaninha com o punho fechado. A xícara caída deixava o café frio escorrer pela mesa. Uma palavra suja fora cuspida pelos cândidos lábios daquela infeliz. Merda! Fazer o que? Fugir? Correr para os braços do abismo? O corvo grasnava alto, para acordar o prédio inteiro e talvez, com sorte, despertar a tola
mulher para a realidade.

- Desista! Não vou lhe deixar dormir enquanto não perceber! Acorde! Acorde! Acorde! - gritava o corvo.

A mulher, dominada pela raiva, abrira então a janela e o mundo lá fora parecia engolir sua sala. Um vento forte entrava fazendo a cortina rodopiar e surgir um uivo ainda mais alto que qualquer grasnido. O pássaro, pego de surpresa, batia as asas enlouquecidamente. Ia de encontro ao lustre, jogava livros no chão em busca de um solo estável. Ele desceu então, como uma águia caça um camundongo e cravou suas garras no peito daquela mulher.

O impacto a faz cair no chão e enquanto o vendaval varria da mesa seus escritos e enchia o cômodo de folhas secas e escuras, o bico curvo do pássaro arranhava seu nariz. Aquelas pérolas negras encaravam suas pupilas dilatadas de medo e faziam parecer que o mundo havia parado de girar.


- Não há como fugir de si mesmo. - Grunhiu o animal.


Numa tentativa frustrada de esconder a culpa e a vergonha que aqueles olhos a causavam, ela virara o rosto para encarar o tapete empoeirado. Uma dor cortante inundou então seu pescoço e tudo o que ela era capaz de sentir agora era o calor de seu sangue escorrendo sob sua camiseta destruída pelas garras de seu próprio animal. Ele, que engolia um pedaço de pele e carne, bateu as asas e voou pela janela aberta.

Ela estaria livre daquela parte selvagem de si por essa noite, mas permanecia em seu peito a certeza de que a mesma voltaria. Voltaria quantas vezes ela a expulsasse. Não desistiria enquanto existisse sequer um pedaço daquela mulher que ainda tentava viver dentro dela.

Bia Valle

Você me causa os piores ataques. Faz-me chegar a dois passos da morte para me puxar de volta ao mundo no instante seguinte. Pego-me dançando com você num salão enorme, com paredes cobertas de espelhos. Deslocada dentro de um longo vestido carmesim, costurado a fios de ouro. Presa por espartilhos e melodias provocadas pelas sinfonias escolhidas por você. Não sei agir na presença do seu encanto. O seu requinte me reduz a minha pequenez. Sua boca esboça o sorriso de quem conhece todas as verdades do mundo, mas insiste em responder minhas perguntas com charadas. Você me leva aonde quiser e sabe disso. Você se aproveita do estado que me causa.

Sua mão na minha cintura guia meus movimentos pra dentro de você e eu vou sem resistir, porque é pra lá que corre a minha alma. Tudo que mais desejo é repousar do seu lado, ao som dos seus poemas preferidos sussurrados ao meu ouvido. O toque das suas palavras faz meu corpo liberar as toxinas mais nocivas, os hormônios mais intensos. Meu coração apanha enquanto bate, luta para manter vida nesse meu corpo imperfeito. Vida que se desfaz a cada aproximação sua. Minha razão insiste para que eu vá para longe, para que eu fuja de você. Mas meu corpo deseja o seu. Meus pés me levam para a porta da sua casa. Meus olhos insistentemente procuram pelos seus. Minhas mãos não descansam enquanto longe das suas. Meus lábios não aceitam sua ausência.

Eu dançaria com você pela eternidade. Viajaria os séculos ao seu lado. Se tivesse escolha, amar-lhe-ia todas as noites e todas as manhãs. Mas tudo o que posso fazer é fechar os olhos e seguir seus passos pelo salão espelhado. E isso é muito pouco.

Bia Valle

Mesmo que eu não consiga ver as estrelas todas as noites (como na de hoje), ainda as amo com toda a força que tenho. Posso fechar os olhos e ver os minúsculos diamantes pendurados no veludo azul-marinho. Às vezes até sonho que a lua está na minha janela, branca e brilhante, enchendo meu quarto de luz. Às vezes acordo e vejo que é apenas mais uma madrugada nublada, como muitas outras da minha alma. Com você também é assim. Te vejo de longe, com um brilho fraco, piscando pra logo se apagar. E pensar que você já foi aquele cometa que vinha e ficava na minha janela. Lembro de você me encarando com aqueles olhos brilhantes, quase que me engolindo inteira sem nem me mastigar. Você sempre soube que não era tão simples assim. Eu não caberia toda no céu da sua boca. Mas você entendeu e acabou desaparecendo. De tempos em tempos… se apagando. Será que fui eu? Não poderia suportar a ideia de que a mim cabe toda a culpa de você ter se transformado em um buraco escuro. Negro. Mas ainda assim te amo com todas as forças que tenho. Procurarei até os confins da Terra pelos diamantes que pertenceram a seus olhos negros como a noite. Vou devolve-los a você. Prometo. E quando conseguir, Deus permitirá que tenhamos uma noite limpa de verão. E então admiraremos juntos a lua. A nossa lua. 

Bia Valle

Mesmo que eu não consiga ver as estrelas todas as noites (como na de hoje), ainda as amo com toda a força que tenho. Posso fechar os olhos e ver os minúsculos diamantes pendurados no veludo azul-marinho. Às vezes até sonho que a lua está na minha janela, branca e brilhante, enchendo meu quarto de luz. Às vezes acordo e vejo que é apenas mais uma madrugada nublada, como muitas outras da minha alma. Com você também é assim. Te vejo de longe, com um brilho fraco, piscando pra logo se apagar. E pensar que você já foi aquele cometa que vinha e ficava na minha janela. Lembro de você me encarando com aqueles olhos brilhantes, quase que me engolindo inteira sem nem me mastigar. Você sempre soube que não era tão simples assim. Eu não caberia toda no céu da sua boca. Mas você entendeu e acabou desaparecendo. De tempos em tempos… se apagando. Será que fui eu? Não poderia suportar a ideia de que a mim cabe toda a culpa de você ter se transformado em um buraco escuro. Negro. Mas ainda assim te amo com todas as forças que tenho. Procurarei até os confins da Terra pelos diamantes que pertenceram a seus olhos negros como a noite. Vou devolve-los a você. Prometo. E quando conseguir, Deus permitirá que tenhamos uma noite limpa de verão. E então admiraremos juntos a lua. A nossa lua.

Bia Valle

Formas do Nada, Paulo Henrique Britto. #livro #quote

#livro #quote #frase #book #vermelhoamargo

Estou absolutamente cansada. Tudo que desejo é gritar para dentro - me recuso que qualquer um escute meu pesar. Quero descer do barco no meio da tormenta. Se acaso tivesse sorte, seria carregada para alguma baía. Qualquer areia úmida que minha alma seca, rugosa e frágil pudesse repousar. Enganar-se é o pior defeito. Nem se vê baías por essas bandas. Apenas a grama amarronzada e as folhas secas das copas das árvores, ainda à espera da chuva de setembro. Sequer sei nadar. Espero ansiosamente que a areia escorra logo pela ampulheta e os minutos sejam trocados por outros. As estrelas surjam e a dor sobre minhas pálpebras force o fechar dos meus olhos que insistem em procurar detalhes, e falhas, e cantos em todas as paisagens às quais assisto. Tudo que desejo é um sono sem sonhos, porque até neles insisto em tropeçar em memórias que acreditava já haver olvidado. Mas se a tempestade passar, o que virá depois? Calmaria, bonança? Mais do mesmo, suspeito eu.

Bia Valle

Eu não nasci pra essa história de não-ultrapasse-as-30-linhas e você-precisa-ser-alguém-na-vida. Porque como se sabe, reza a lenda que para ser não basta nome: é preciso conta bancária com saldo positivo, disciplina e muita garra. Isso mesmo. É vagabundo quem não quer trabalhar. Pois eu não aceito esse caminho que doutrinam-nos a seguir. Matar-se de estudar, de trabalhar, de correr, de falar, de gritar. Não aguento o batuque da britadeira. Detesto o acelerar dos carros, os jingles de publicidade e o soar agudo do sinal que reclama início do expediente. Quando é que teremos tempo para as sutilezas da vida e da história? Será que nos permitirão visitar os confins da Terra pra entender como tudo começou? É inevitável submeter-se ao sistema. Até poderemos fugir do caos urbano, mas apenas quando eles nos autorizarem.
Não nasci pra essas limitações fúteis da modernidade. Até entendo que alguns achem minhas idéias utópicas ou excessivamente subversivas, mas não suporto a mediocridade da raça humana que ignora esse universo imensurável e ininteligível que na Terra traduz-se apenas um pedaço. Eu nunca coube nesses espaços em branco que eles nos mandam escrever dentro. Desde infante odiava margear meus cadernos com régua e lápis colorido. Ainda bem que nasci sem asas, posto que certamente os céus também não me caberiam.

Me sinto tão confortável vendo você assim sorridente, de cabeça erguida logo de manhã cedo. Você sabe que as suas dores me doem também, parecem até ser as mesmas. Eu já te disse que você pode me ligar quando a solidão deixar de ser liberdade. Ainda me incomoda não saber se você também vê nos meus olhos os diamantes que encontro nos seus. Falta-me qualquer certeza, mesmo que pequena, da reciprocidade das vontades que tenho de você. Nós dois, marcados pelos mesmos castigos do tempo e da vida. Tão completos juntos assim. Te ver faz meus dentes ansiarem pela luz do dia, mesmo que a noite tenha demorado a passar. Aquela vontade de sorrir pelo simples motivo que seu cabelo é macio e seu cheiro reconfortante. Faz-me sentir em casa. Parece que só você ainda não viu que as linhas do destino convergem em nós dois. Bia Valle

“Não fala do que eu deveria ser pra ser alguém mais feliz.”
Quem Sabe - Los Hermanos

“Não fala do que eu deveria ser pra ser alguém mais feliz.”

Quem Sabe - Los Hermanos

Duvido muito que a felicidade seja um estado possível de se reconhecer. Podem dizer o que quiserem, mas ainda penso que nada nesse mundo - nem as palavras tortas da língua portuguesa nem os algarismos numéricos arábicos precedidos de cifrões - seriam capazes de dizer o que é e como conquistá-la. Ela é a esperança, o alvo, a meta. Uns dizem que ela é o caminho. Eu só sei que a busca da felicidade é história de vida de todos os seres humanos. É o combustível do motor da vida, por mais que isso soe clichê.  Acredito que quem é feliz não sabe. É dispensável dizer que se é ou não. A verdade é que a felicidade é apenas uma suposição. Talvez a temos. Talvez não. Isso pouco importa. Se um dia soubermos que ela nos acompanha, pararemos de caminhar. E então seria ladeira abaixo. Ela escorre pelos nossos dedos mesmo antes de percebemos que ela está em nossa posse. É arisca, efêmera em seu estado tangível. No meu caso, suspeito que seja feliz. Evito inquirir o destino e o passado, pois a única coisa da qual tenho certeza é da minha melancolia. Torço pra que a felicidade caminhe em mim, desejo-a se ela quiser tornar tal caminhada menos ríspida. Se ela não vem, fico satisfeita com meus medos domésticos, cicatrizes da alma e impossibilidades em mim. Nenhum deles me mata. Protegem-me dos possíveis espinhos, fantasmas e lobos que enfrento todos os dias. Apenas caminho, cruzando os dedos pra que eu nunca perceba que sou feliz, pois, caso isso ocorra, assistirei todos os meus castelos de areia se desmanchar no vento e na maresia. 

Bia Valle