O pôr do sol da minha janela

Às sete e meia, no horário de verão, nenhuma luz era necessária. O brilho alaranjado do sol era capaz de iluminar todo o seu quarto. Lembrava sempre daquilo que um dia disse pra si mesma e jamais se esqueceu: “o pôr do sol da minha janela é sempre bonito”.

Aquele dia ela observava a paisagem debruçada em sua janela. A xícara suja de café pendia do seu dedo, quase caindo dois andares abaixo. Um pensamento também pendia em sua cabeça, como uma gota que se enche aos poucos, prestes a pingar. Ela sabia que uma hora pingaria e, quando isso acontecesse, o papel e a caneta estariam lhe esperando na primeira gaveta da cômoda.

Um dia eu vou dar certo, não vou? Ser gente, ter casa, ter carro, ter vida. Eu vou estar no meio da multidão, vou encontrar os seus olhos e a gente vai saber claro como um céu de primavera que dentro do mundo tinha outro mundo que era só nosso. E que ele permanecia de pé. Estável. Sem rachaduras. Sem risco de implosão.

Ela sempre teve certeza disso. O que não conseguia entender era como que mesmo depois de tanto murro em ponta de faca, depois de se reduzir a menos que pó pra tanta coisa, ela ainda acreditava em final feliz. Como ela ainda era capaz de crer? Não era tudo vazio? Incolor? A vida já não tinha ensinado por a-mais-b que depois do arco-íris nunca teve pote de ouro? Tola. Todo mundo sempre disse que ela era do tipo sentimental. Não tinha mesmo motivo que explicasse seu talento pra esperança. Era tanto, tanto, tanto pra depois nada!

Às vezes é como dar socos na água ou gritar em sonhos. Esticar suas mãos e nunca alcançar a outra margem. Mas ainda assim meu coração pulsa na certeza de que o fim é cor-de-rosa.

A gota havia pingado e o brilho alaranjado diminuía mais a cada segundo. Já era preciso acender a luz, mas ela ainda acreditava. Seria independente. Teria seu emprego dos sonhos. Seria amada por completo. Ela nascera pra isso: pra ter fé. O grito da vizinha a trouxe de volta. “Calça o chinelo agora!” Mal ela sabia que o pôr do sol era sempre lindo da sua janela também.

Bia Valle

"Assim também acontecia com o Lobo da Estepe. Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que mostrava nele. E assim tinha de ser pois Harry, como toda pessoa sensível, queira ser amado como um todo e, portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo. Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indômito, o perigosos e forte, e estes achavam profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mozart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas."

O Lobo da Estepe - Herman Hesse

Tardia Primavera

Foi andando pela mesma calçada de todos os dias que a primavera chegou pra mim. Florzinhas haviam brotado aos pés da árvore com que cruzo todas as manhãs. Elas poderiam ter escolhido qualquer cor da aquarela, mas quiseram nascer azuis.

Gostei de azul por seis semanas e nada mais. Depois disso, azul virou azar. Desejei o inverno mais duro possível para o céu não me fazer lembrar. Em vão, porque o frio que vinha de dentro era tão frio que tornava as pontas dos meus dedos roxas. Roxo lembra azul. E azul lembra você.

Essas florzinhas da manhã de hoje pinicaram meu peito. Não com aquela força cruel e doentia que me esmagava e me fazia queimar de dentro pra fora. Pinicou leve. Pinicou brando. As florzinhas sussurraram aos meus ouvidos, despertando uma memória agridoce. Doce o suficiente pra me fazer esboçar um sorriso de como quem diz: é, acabou.

As flores, que poderiam ter escolhido qualquer cor da aquarela, escolheram o azul dos seus olhos e isso não me machucou. Não me sobreveio qualquer vontade de pisoteá-las ou arrancá-las com terra, raiz e concreto. Muito menos quis diminuir o ritmo para admirá-las por alguns segundos a mais. Foi simples. Sútil. Seco.

A primavera é o prenúncio do verão, mas eu duvidei de que as flores lhe prenunciavam. As estações nunca decidiram nada por você. E por destino, acaso, karma ou coisa outra qualquer, de todos os olhares do mundo, hoje o seu quis cruzar com o meu. Aquelas mesmas safiras que por seis semanas brilharam pra mim. E embora eu esperasse que o peito sangrasse e ardesse e queimasse de novo, pouco aconteceu. Um formigamento. Uma coceira. Um espasmo que me fez procurar pela cicatriz que só eu sabia que estava lá. Um esboço de sorriso de como quem diz: é, acabou.

Aqueles olhos azuis-pacífico que por tanto tempo temi encontrar, encontraram os meus castanhos-sem-graça. Pegaram-nos desprevenidos, alegres, sem dor ou melancolia. E por mais que eu esperasse - e tivesse me esforçado pra ter certeza -, os meus castanhos-sem-graça não quiseram liberar uma gota sequer do oceano que uma vez comportaram. Um fim simples. Sutil. Seco. Acompanhado de um adeus que nunca existiu. Então eu soube que a primavera enfim havia chegado.

Q

emolduradoempoesia asked:

Você escreve bem, Bia. Quando li o seu texto e vi o nome da autora fiquei torcendo para que fosse o da dona do blog... E eu acertei no final das contas hehe. É ótimo ler algo interessante e descobrir que o seu autor está mais próximo do que a gente esperava. Enfim, continue escrevendo!

A

Obrigada pelos elogios. Espero que minha escrita continue te agradando. :))))

Q

free-to-live-what-i-am asked:

Simplesmente , ameei ! <3

A

Obrigada. :)

Minhas Pilhas

Eu olho minha escrivaninha de longe e imagino que minhas pilhas de papéis e livros e cadernos são inúteis. Tão inúteis quanto as cartinhas-de-amor que guardo dentro de uma caixa de madeira no fundo do meu armário. Por mais que eu tente esvaziá-las e picotar algumas folhas, minhas pilhas não diminuem nem pela metade. Pra mim é tudo importante. Pra mim é tudo memória. 

É difícil esvaziar minha caixa de cartinhas-de-amor ou minha pasta-de-fotos-inspiradoras. É que eu acho tudo digno de lembrança. Eu gosto de guardar memórias, principalmente as doídas. Essas eu gosto de escrever até esgotar a alma e a palavra. Quando a gente escreve, a gente guarda quase que pra sempre. E foi por isso mesmo que escrevi minhas estórias  histórias com ele. Eu queria guardá-lo quase que pra sempre e consegui. 

Mas a minha escrivaninha vive cheia porque eu acho que muita coisa importante tem que ficar ao meu alcance. Meus cadernos-de-memória, por exemplo. Aquele em que eu guardo ingressos de cinema e frases mal escritas - que não tem sonoridade nem ritmo, mas tem dor e tem franqueza. Meus livros de cabeceira também ficam na escrivaninha. Esses, onde eu sempre retorno quando a vida me apresenta dúvidas que me esqueci das respostas. Como aquele trecho de Brás Cubas, que me deixa sem fôlego a cada releitura.

 "Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim…" 

É triste quando a vida fica estreita demais e a agenda rabiscada me faz ter que guardar meus cadernos-de-memória e meus livros-de-consulta. É triste porque é um sinal de que eu tenho menos tempo pra consultar e pra lembrar. Triste porque a mulher que vive em mim vence o corvo e eu… Eu amo o corvo. Ele me bica e me doe e me rasga, mas ele diz:

-Você vive e não apenas existe!

Ele me lembra que sou mais do que um número girando uma catraca. 

Mas hoje foi dia de guardar os cadernos-memória e os livros-consulta. Noite de espantar o corvo e armar o despertador, porque a vida tá estreita e ainda não dá pra fugir. Mas amanhã… Amanhã eu abro a janela e espero ele voltar.

Bia Valle

Navegar é Preciso

Se o céu e o mar me encantam tanto deve ser pelo tamanho. A grandeza do azul me fascina e me enche de medo. Tudo que é assim - desconhecido e imenso e azul - me afeta. Amedronta. Instiga. Esse meu anseio por navegar de Norte a Sul se esbarra no medo absurdo que eu tenho da imensidão me engolir e eu nunca mais ser capaz de voltar à superfície. E o que tem depois da última estrela? Se eu partir em busca de respostas, será vou conseguir voltar? Desisti de ser astronauta. Desisti de ser marinheira. Mas amor, se eu digo assim que te de odeio - se rejeito seu abraço ou largo sua mão - não leva tão a sério. É tudo medo. É tudo vontade. Não desisti de você. Quando você diz que eu resisto em me entregar, fala a verdade. Mas me entende amor: eu quero. Se hoje me limito a apenas apreciar as constelações e a espuma que a última onda deixou sob meus pés, não é assim com você. Quero descobrir a história de todas as cicatrizes dos seus joelhos e decorar seus poemas favoritos. Mergulhar até os lugares mais obscuros de você. E amor, se eu nunca mais for capaz de voltar à superfície, serei finalmente completa. Desvendei o céu. O céu da sua boca.

Bia Valle

Um dia alguém me contou um segredo sobre os contos de fadas. Ele me disse que eu não deveria esperar que a vida me desse um final feliz. Justificou que os contos precisavam daquilo, mas eu não. O final ainda não havia chegado pra mim. Ele me pediu que aquele momento fosse especial, mesmo que nem tudo corresse como esperávamos. Afinal, se nós dois não déssemos certo, aquela noite ainda teria seu valor. Eu acreditei. Entendi que muitas vezes sofri por escolha. Exigi da vida algo que não era da sua natureza me oferecer. Esqueci que os ciclos fazem parte de nós e que há coisas que precisamos perder. Esqueci que é isso que nos faz crescer. E agora, vendo a lua assim, que de tão brilhante me lembra o seu sorriso, entendi que há coisas - sentimentos e desejos e lembranças e fotos - que devemos deixar pra trás, por mais que nosso coração ainda espere por um final feliz. Talvez se ele entendesse isso, tudo seria diferente. Mas quem entendeu fui eu, o que significa que é hora de seguir em frente.

Bia Valle

Um dia alguém me contou um segredo sobre os contos de fadas. Ele me disse que eu não deveria esperar que a vida me desse um final feliz. Justificou que os contos precisavam daquilo, mas eu não. O final ainda não havia chegado pra mim. Ele me pediu que aquele momento fosse especial, mesmo que nem tudo corresse como esperávamos. Afinal, se nós dois não déssemos certo, aquela noite ainda teria seu valor. Eu acreditei. Entendi que muitas vezes sofri por escolha. Exigi da vida algo que não era da sua natureza me oferecer. Esqueci que os ciclos fazem parte de nós e que há coisas que precisamos perder. Esqueci que é isso que nos faz crescer. E agora, vendo a lua assim, que de tão brilhante me lembra o seu sorriso, entendi que há coisas - sentimentos e desejos e lembranças e fotos - que devemos deixar pra trás, por mais que nosso coração ainda espere por um final feliz. Talvez se ele entendesse isso, tudo seria diferente. Mas quem entendeu fui eu, o que significa que é hora de seguir em frente.

Bia Valle

O Corvo e a Dama

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O café estava amargo assim como suas memórias. Estava cansada. Exausta como sempre. Da janela de seu quarto deitava seus olhos sobre a rua vazia. Já tardava a madrugada e ela era incapaz de descansar a mente sobre o travesseiro. Não suportava mais o barulho insistente do corvo:

- Desista! Desista! Desista!

O corvo, empoleirado na estante, a olhava com seus minúsculos olhos negros como piche e ria da sua tristeza. Inocente era ela de achar que suportaria aquele mundo. Ela sabia que não nascera pra usar máscaras. Por que é que insistia tanto naquela farsa? Num instante de súbita coragem ela respondeu ao pássaro:

- O que você quer? Que eu crie asas? Que eu assuma o manto negro? Impossível! Impossível!

Esmurrou três vezes a escrivaninha com o punho fechado. A xícara caída deixava o café frio escorrer pela mesa. Uma palavra suja fora cuspida pelos cândidos lábios daquela infeliz. Merda! Fazer o que? Fugir? Correr para os braços do abismo? O corvo grasnava alto, para acordar o prédio inteiro e talvez, com sorte, despertar a tola
mulher para a realidade.

- Desista! Acorde! Acorde! Acorde! - gritava o corvo.

A mulher, dominada pela raiva, abrira então a janela e o mundo lá fora parecia engolir sua sala. Um vento forte entrava fazendo a cortina rodopiar e surgir um uivo ainda mais alto que qualquer grasnido. O pássaro, pego de surpresa, batia as asas enlouquecidamente. Ia de encontro ao lustre, jogava livros no chão em busca de um solo estável. Ele desceu então, como uma águia caça um camundongo e cravou suas garras no peito daquela mulher.

O impacto a faz cair no chão e enquanto o vendaval varria da mesa seus escritos e enchia o cômodo de folhas secas e escuras, o bico curvo do pássaro arranhava seu nariz. Aquelas pérolas negras encaravam suas pupilas dilatadas de medo e faziam parecer que o mundo havia parado de girar.



Numa tentativa frustrada de esconder a culpa e a vergonha que aqueles olhos a causavam, ela virara o rosto para encarar o tapete empoeirado. Uma dor cortante inundou então seu pescoço e tudo o que ela era capaz de sentir agora era o calor de seu sangue escorrendo sob sua camiseta destruída pelas garras de seu próprio animal. Ele, que engolia um pedaço de pele e carne, bateu as asas e voou pela janela aberta.

Ela estaria livre daquela parte selvagem de si por essa noite, mas permanecia em seu peito a certeza de que a mesma voltaria. Voltaria quantas vezes ela a expulsasse. Não desistiria enquanto existisse sequer um pedaço daquela mulher que ainda tentava viver dentro dela.

Bia Valle

Você me causa os piores ataques. Faz-me chegar a dois passos da morte para me puxar de volta ao mundo no instante seguinte. Pego-me dançando com você num salão enorme, com paredes cobertas de espelhos. Deslocada dentro de um longo vestido carmesim, costurado a fios de ouro. Presa por espartilhos e melodias provocadas pelas sinfonias escolhidas por você. Não sei agir na presença do seu encanto. O seu requinte me reduz a minha pequenez. Sua boca esboça o sorriso de quem conhece todas as verdades do mundo, mas insiste em responder minhas perguntas com charadas. Você me leva aonde quiser e sabe disso. Você se aproveita do estado que me causa.

Sua mão na minha cintura guia meus movimentos pra dentro de você e eu vou sem resistir, porque é pra lá que corre a minha alma. Tudo que mais desejo é repousar do seu lado, ao som dos seus poemas preferidos sussurrados ao meu ouvido. O toque das suas palavras faz meu corpo liberar as toxinas mais nocivas, os hormônios mais intensos. Meu coração apanha enquanto bate, luta para manter vida nesse meu corpo imperfeito. Vida que se desfaz a cada aproximação sua. Minha razão insiste para que eu vá para longe, para que eu fuja de você. Mas meu corpo deseja o seu. Meus pés me levam para a porta da sua casa. Meus olhos insistentemente procuram pelos seus. Minhas mãos não descansam enquanto longe das suas. Meus lábios não aceitam sua ausência.

Eu dançaria com você pela eternidade. Viajaria os séculos ao seu lado. Se tivesse escolha, amar-lhe-ia todas as noites e todas as manhãs. Mas tudo o que posso fazer é fechar os olhos e seguir seus passos pelo salão espelhado. E isso é muito pouco.

Bia Valle